sábado, 21 de maio de 2011

Era uma vez…


Quem, como eu, precisa contar histórias para crianças dormirem, já deve ter notado que não basta se ater ao que está escrito no livros; eventualmente, é preciso também improvisar. Quando não é a repetição incessante dos mesmos enredos que faz o próprio narrador cair no sono, é a alusão a termos e hábitos pouco comuns atualmente que acabam confundindo e dispersando os pequenos.
Como, por exemplo, em tempos de Facebook, fazer uma criança aceitar que o príncipe precisou saiu por aí calçando um sapato perdido em todas as mulheres do reino até encontrar a Cinderela, ou que João e Maria não tinham um telefone celular capaz de ligar para um tio que os ajudasse a sair da floresta? Pois bem, para manter o interesse das crianças até que o sono chegue, minha receita é adicionar às clássicas narrativas elementos do cotidiano, que as façam soar um pouco mais familiares. Tendo como base esse conceito, fiquei pensando como seriam algumas das principais historinhas de nossa infância, caso se passassem nos dias de hoje:
Branca de Neve
Ao chegarem à festa de lançamento de uma grife de cosméticos assinada por Paris Hilton, duas ex-BBBs se percebem na constrangedora situação de trajar vestidos idênticos; inconformada com a própria sorte – e desejando intensamente fazer seu par de jarra desaparecer – uma delas tem a sórdida (e brilhante) ideia de macerar quatro comprimidos do antidepressivo que lhe fora prescrito após sua eliminação do programa no Apple Martini da rival.
Após bebericar o drinque, a pobre moça começa a sentir-se muito mal e decide sair da boate para tomar um pouco de ar fresco. Desorientada, segue trocando as pernas pelas ruas, até tombar debaixo de um viaduto onde é “acolhida” por sete meninos de rua que vivem no local. Pensando que a bela estivesse morta, eles resolvem depenar seus pertences e colocá-la deitada sob o banco de uma praça próxima dali, a fim de eliminar qualquer possibilidade do crime ser atribuído ao grupo.
Por coincidência, um rico empresário que passava de carro reconhece a “celebridade” e decide acompanhá-la ao hospital. A partir do episódio, os dois iniciam um namoro, e a moça envenenada, ao dividir a triste história com o público de um programa de TV vespertino de cunho sensacionalista, acaba conseguindo realizar seu maior sonho: posar para a capa da principal revista masculina brasileira.
Três Porquinhos
Três estudantes universitários resolvem criar juntos um site de compras coletivas que, em poucos meses, obtém enorme sucesso. De olho no potencial de crescimento do negócio, a Lobo S.A, holding do ramo de entretenimento, parte com unhas e dentes para cima da pequena sociedade, com o intuito de agregá-la ao rol de empresas do grupo.
O primeiro estudante, pouco afeito a negócios, vende sua parte por quantia irrisória, revertida numa viagem de ônibus pela América do Sul. O segundo estudante, ganancioso porém sem visão comercial, contenta-se com um pequeno lote de ações da futura empresa. Mas o terceiro estudante, esperto que só, contrata um time de advogados experientes em fusões de conglomerados, que não só conseguem anular os contratos assinados pelos ex-sócios, mas também reunir um dossiê que culmina com a condenação da Lobo S.A por sonegação fiscal.
Patinho Feio
Nascido numa família de origem humilde, em meio a seis irmãos, um adolescente sofre, apenas por não ser como todos os outros de seu bairro. Enquanto os meninos de sua idade jogam bola no campinho de terra, frequentam bailes funk e assistem a lutas de UFC pela TV, o protagonista dessa história alisa as madeixas com chapinha, só sai maquiado, veste preto dos pés a cabeça – mesmo em dias de sol escaldante – e chora quando ouve músicas românticas.
Tanto em casa quanto na escola, o sensível rapaz é vítima das mais perversas formas de bullying, o que, de certa maneira, determina seu caráter introvertido e refratário. Convencido de que nunca seria deixado em paz por seus algozes, o adolescente resolve então sair pelo mundo em busca de seu lugar. Após semanas perambulando pela cidade, dormindo em sarjetas que encrespavam sua franja e se alimentando da caridade alheia, nosso herói se depara com o cartaz de um concurso vagabundo de talentos.
Concorrendo pelo prêmio de R$30,00 com um homem que enfiava pregos no nariz e outro que contava piadas sem dentadura, o adolescente franzino sobe sob o caixote diante da diminuta plateia para entoar um cover do Simple Plan. Como num passe de mágica, o patinho feio transforma-se num cisne-emo, numa performance arrebatadora de canto e lágrimas que emociona os presentes. Por sorte, um deles era o executivo de uma grande gravadora, que enxergou no rapaz um raro talento a ser lapidado.
Bom, se porventura alguém tiver gostado destas versões, sintam-se a vontade para passá-las a diante. Só não me responsabilizo por possíveis pesadelos.

Fonte: http://g1.globo.com/platb/instanteposterior/

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