terça-feira, 5 de abril de 2011

A luta de uma Professorinha

Uma academia que agoniza

Em Apodi, entidade que reúne jovens alunos, amantes da literatura, poderá fechar suas portas
Mário Gerson
Da Redação da Gazeta do Oeste

Já não existem tantos grêmios literários como antigamente. As escolas primam, cada vez menos, pelo bom trabalho de literatura e a internet traz resumos mal elaborados sobre livros e autores. Está aí o Google para não nos deixar cometer injustiça...
Nas cidades de pequeno porte, os grêmios literários e os concursos de poesia sequer são citados quando se fala em promoção cultural. Bandas de forró e carnavais fora de época são dois exemplos que arrastam multidões e esvaziam os espaços destinados à leitura. Em Apodi, uma proposta diferenciada de uma professora local pode simplesmente deixar de existir. Trata-se da Academia Estudantil de Letras Poeta Antônio Francisco. Fundada em 2008, a entidade possui membros (estudantes) por toda a localidade e é exemplo de despertar para a leitura num Estado em que seus autores penam para publicar livros e não sabem o que é apoio de livrarias. "A academia surgiu diante de uma inquietação que sempre tive com relação à leitura praticada em nossas escolas. Incomodava-me (e ainda incomoda) a não existência de espaços que promovam o gosto pela leitura nas escolas. O que a maioria de nossas escolas promove é a obrigatoriedade da leitura, não o prazer. Agindo assim, só afastamos nossos estudantes da magia que a literatura pode nos proporcionar. A Academia Estudantil de Letras surgiu dessa necessidade. Senti que ela poderia ser uma excelente oportunidade de oferecer aos nossos jovens momentos prazerosos de contato com a leitura, de forma espontânea; com incentivo, não com cobranças", destaca Rokátia Kleânia.
Segundo ela, o grupo começou pequeno, coisa de meia dúzia de alunos. "Aos poucos, de forma espontânea, foram chegando mais. Na solenidade de fundação, 2008, já éramos 17. A partir daí, o grupo só cresceu. Hoje, temos aproximadamente 40, entre titulares, correspondentes e simpatizantes", diz.
A professora salienta que apesar de não contar com recursos financeiros, realiza, além das rodas de leitura e contação de histórias, seminários sobre os patronos, encontros com escritores, oficinas de poesia e de teatro e passeios a bibliotecas, museus e teatros. "Fizemos apresentações culturais em eventos dentro e fora da escola e, ainda, participamos da Feira do Livro em Mossoró, com direito à exposição de textos literários produzidos pelos próprios acadêmicos", destaca.
Atualmente, a realidade da academia estudantil é delicada. "Quando iniciei com o grupo, era professora da Sala de Leitura da Escola Lourdes Mota e isso fazia com que tivesse mais disponibilidade de tempo para planejar e executar as atividades acadêmicas, além de certa liberdade de realizar essas atividades em meu horário de trabalho. Muitas oficinas, seminários e círculos de leitura foram realizados na própria biblioteca, sem atrapalhar o trabalho da Sala de Leitura, nem o desenvolvimento das outras atividades. O fato de executar todo trabalho acadêmico sozinha dificultava, mas não chegava a atrapalhar o seu andamento", diz.
No entanto, desde 2010 a professora foi removida da Sala de Leitura e conduzida de volta, com carga horária completa, à sala de aula. "Isso tem prejudicado bastante o andamento da AEL, uma vez que possuindo 50 hora/aulas por dia, se torna praticamente impossível para apenas uma pessoa planejar e realizar as diversas atividades que a academia requer. Afinal, a proposta da AEL é oferecer aos estudantes momentos prazerosos de contato com a leitura e isso demanda tempo e dedicação não apenas na execução das atividades, mas principalmente no planejamento e preparação dessas ações", destaca.
Ela lamenta que devido a isso as atividades tenham diminuído. "Em 2008 e 2009 tínhamos, em média, dois encontros semanais. No início de 2010, passamos a nos reunir quinzenalmente, mas devido à inviabilidade, os encontros passaram a ser mensais. Agora, em 2011, só tivemos um único encontro até agora", salienta.

UM FECHAMENTO IMINENTE - Com isso, o cenário não é nada animador. A falta de apoio tem tornado inviável o crescimento da AEL. "Lutamos para não deixar morrer esse grupo de pequenos futuros imortais. A iminência do fim da AEL dói intensamente em mim, mas dói mais ainda nos jovens acadêmicos. Afinal, ninguém mais do que eles sabem o quanto a AEL significa em suas vidas. Ninguém melhor do que um acadêmico para sentir os benefícios que um projeto dessa natureza provoca na sua vida escolar, familiar e, sobretudo, na sua vida em sociedade", lamenta a professora.
Nesse sentido, ela destaca que é fundamental que se reveja "a forma como a prática de incentivo à cultura literária é desenvolvida em nosso país. Precisamos ampliar e melhorar os poucos espaços que possuímos e promover ações de incentivo não apenas ao hábito, mas especialmente ao gosto pela leitura, prática indispensável nos dias de hoje. Só assim, com uma completa transformação de postura e atitude, nosso país terá um povo mais culto e, sobretudo, mais crítico e desenvolvido", diz.


'Academia pode contribuir na melhoria na hora da aprendizagem dos jovens'

De acordo com a professora, a entrada para a AEL ajuda, sim, aos estudantes, na melhoria da aprendizagem. "A AEL pode, sim, contribuir significativamente na aprendizagem dos jovens que participam de suas atividades, uma vez que a leitura amplia nosso vocabulário, nossa visão de mundo. Além disso, a realização de seminários possibilita aos estudantes exercitarem o 'protagonismo' juvenil tão necessário no desenvolvimento da aprendizagem", diz.
Além disso, ela acrescenta que os estudantes alegam que lá a leitura deixa de ser algo chato e cansativo e passa a ser divertido. "Alguns dizem também ter muito orgulho em serem acadêmicos. Afirmam que a academia os faz se sentirem importantes, pois lá têm vez e voz. Através da AEL, eles deixam de ser meros espectadores e passam a ser protagonistas, valorizados dentro e fora da escola. Acredito que por isso a maioria continua participando dos encontros, mesmo quando conclui o ensino fundamental e precisa se transferir para outro estabelecimento de ensino", fala. "Visamos tão somente proporcionar aos jovens o contato prazeroso com a leitura, de forma a torná-lo um legítimo leitor. Todavia não se pode negar que uma coisa pode levar a outra. É o que ocorre com alguns de nossos acadêmicos que, com a prática constante da leitura, acabaram se identificando com as letras e já começam devagarzinho a produzir seus próprios textos literários", comenta.
Ela, no entanto, aponta um dado triste. "Infelizmente, o que vemos em Apodi são muitos talentos literários sendo adormecidos ou, quiçá, destruídos devido à ausência de ações, que promovam à prática da leitura e o exercício da produção literária. É o caso de Marina Viana, acadêmica, 17 anos, uma poetisa de mão cheia, que já possui uma rica produção poética. Contudo, apesar de nossos esforços, até o momento não conseguiu recursos para a publicação de seu primeiro livro", lamenta. 


Fonte: Gazeta do Oeste

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